segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Depressão: como enfrentá-la?

"Garanto que não sei por que estou triste;
A tristeza me cansa, como a vós;
Mas como a apanhei ou contraí,
Do que é feita, ou do que terá nascido,
Ainda não sei.
A tristeza me fez um tolo tal
Que é difícil até saber quem sou
"

Trecho de O mercador de Veneza, de William Shakespeare

Li o trecho acima na obra O demônio do Meio-dia de Andrew Solomon, escritor americano e doutor em psicologia. O livro - fantástico!, diga-se de passagem - é uma extensa, densa e emocionante narrativa sobre a depressão, em que o autor traz aspectos científicos, pessoais, jornalísticos e psicológicos sobre esse mal, considerado a doença mais incapacitante, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Kofi Annan, ex secretário-geral das Nações Unidas, afirma que cerca de 7% da população mundial é vítima da depressão, o que corresponde a aproximadamente 400 milhões de pessoas. Desses, 800 mil comentem suicídio (uma morte a cada 40 segundos), sendo este a segunda maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos, e fazendo mais vítimas na faixa etária acima dos 70 anos.
Para Solomon, os números sobre as vítimas da depressão revelam a urgência em estudarmos mais a doença e nos sensibilizarmos mais em relação a ela, mas quantificar a doença como causada por ausência da quantidade X de substância Y no organismo é simplificá-la demais. Não existiria uma causa única comum a todos os pacientes, assim como uma solução única, farmacológica ou terapêutica para todos os casos. No livro, ele reforça a diversidade de casos, origens e principalmente o desconhecimento generalizado acerca dela.
A depressão caracteriza-se por inúmeros fatores e dentre eles estão: tristeza profunda sem motivo específico, ansiedade, angústia, apatia, desânimo, isolamento, redução ou incapacidade de sentir prazer/alegria em atividades que outrora despertavam boas sensações, indecisão, pessimismo, sentimento de inutilidade, baixa autoestima, baixa libido, mudanças no apetite, perda ou ganho de peso não intencional, dificuldade de concentração, dificuldade para começar a fazer suas tarefas, e terminar aquilo que já começou, alterações no sono e sintomas corporais, como dores, problemas digestivos e alterações nos batimentos cardíacos.

Como espírita, eu me questiono: qual a visão que o Espiritismo tem da depressão? Seria ela fruto de obsessões ou questões de vidas passadas? Como tratar a doença e enfrentá-la?

Lendo trechos de algumas obras e assistindo alguns vídeos sobre o tema, percebo que, assim como afirma Solomon, para o Espiritismo há diversos fatores que explicariam a ocorrência do mal. Joanna de Ângelis fala de culpas de experiências passadas, perdas dessa mesma encarnação e traumas da experiência uterina (sentimentos transmitidos pela mãe, por exemplo). Divaldo Franco cita as questões obsessivas como causadoras, também, dos episódios depressivos. Alberto Almeida, médico, psicoterapeuta e palestrante espírita, relata casos de Espíritos que reencarnam longe daqueles que foram próximos de si em outras encarnações, trazendo em si a tristeza da saudade. Não há portanto, um fator único desencadeante segundo a Doutrina dos espíritos. Há uma pluralidade de origens que, talvez, até possam somar-se para ocasionar o problema em uma só pessoa.
Acredito, todavia, que o Espiritismo traz falas interessantes e construtivas sobre como conviver com a depressão ou tratá-la. Espíritos de luz, como Divaldo Franco e Natanael (ou Bartolomeu, apóstolo de Jesus), foram vítimas da depressão o e estiveram até muito próximos ao suicídio, encontrando a solução para isso em uma vida dedicada ao Amor.

Joanna de Ângelis nos diz ao encerrar uma mensagem sobre depressão:

"O hábito saudável da boa leitura, da oração, em convivência e sintonia com o Psiquismo Divino, dos atos de beneficência e de amor, do relacionamento fraternal e da conversação edificante constituem psicoterapia profilática que deverá fazer parte da agenda diária de todas as pessoas." (Triunfo Pessoal, psicografado por Divaldo Pereira Franco)

Emmanuel nos aconselha:
"Guarde a convicção de que todos estamos caminhando para adiante, através de problemas e lutas, na aquisição de experiência, e de que a vida concorda com as pausas de refazimento das nossas forças, mas não se acomoda com a inércia em momento algum." (Busca e Acharás, psicografado por Chico Xavier)

Jesus, falando a um Bartolomeu costumeiramente triste, afirma:
"[...] É preciso considerar que a alegria, a coragem e a esperança devem ser traços constantes de suas atividades de cada dia. Por que firmamos no pesadelo de uma hora, se conhecemos a realidade gloriosa da eternidade com o nosso Pai?" (Boa Nova, de Humberto de Campos, psicografado por Chico Xavier)

E Chico Xavier relata:

"Quando a depressão me ameaçava, Emmanuel me recomendava deixar o que estivesse fazendo e ir à periferia, efetuando demora visita aos lares em situação de penúria. Depois de conversar com aquelas mães sofridas, eu voltava para casa com vergonha de mim..."

Sabemos que a depressão muitas vezes expõe o doente a um quadro de quase total desânimo e que, muitas vezes, sair da cama parece tarefa hercúlea. A força que nos move, entretanto, surge apenas de nós mesmos e ela existe em todos. Solomon, ainda que não seja espírita, parece concordar sem saber com o que a Doutrina nos diz ao afirmar:

"Aprendi com minha própria depressão como uma emoção pode ser imensa, como ela pode ser mais real do que fatos, e descobri que essa experiência me permite vivenciar emoção positiva de um jeito mais intenso e focado. O oposto de depressão não é felicidade, e sim vitalidade, e, atualmente, minha vida é vital, mesmo nos dias em que estou triste. Senti aquele féretro no meu cérebro, e sentei-me próximo ao colosso, à beira do mundo, e descobri algo dentro de mim, que chamo de alma, que eu nunca elaborara até aquele dia, 20 anos atrás, quando o diabo me fez uma visita surpresa. Acho que ao odiar estar deprimido, e odiaria novamente, descobri um jeito de amar minha depressão. Eu a amo por ela ter me forçado a buscar alegria e a me agarrar a ela. Eu a amo porque, todos os dias, eu decido, às vezes com bravura, e outras, contra a razão do momento, agarrar-me às razões de viver. E isso é um grande privilégio." (Palestra em www.ted.com, Depression: The secret we share, legendado em Português)

Sendo assim, ame. Encontre algo ou alguém que desperte em si o amor e apegue-se a esse sentimento para seguir adiante pela eternidade.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

A Reforma íntima e seus desafios

Olá! Hoje gostaria de refletir com vocês sobre um assunto dos mais densos e penosos para todo espírita: a reforma íntima.

Como já disse aqui antes, mudar a si mesmo para melhor exige inúmeros e enormes sacrifícios, a não ser que sejamos espíritos muito evoluídos - se houver algum leitor nesse patamar 99% puro e aquele 1% terráqueo, saiba que não estou escrevendo este texto para você. #espíritaengraçadinha Verdade é que penso sobre essa questão com uma frequência nada branda, o que me torna um tanto angustiada quase sempre... Tenho também um companheiro que se cobra imensamente a melhoria de si mesmo e compartilha comido as mesmas aflições.

No Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVII, itens 3 e 4, traz uma pequena lista (#sqn) dos caracteres do homem de bem e do bom espírita. Para termos uma noção, segue aqui um trechinho:

"O O verdadeiro homem de bem é aquele que pratica a lei de justiça, de amor e de caridade em sua maior pureza. Se interroga a consciência sobre seus próprios atos, pergunta a si mesmo se não violou essa lei; se não fez o mal e se fez todo o bem que podia; se negligenciou voluntariamente uma ocasião de ser útil; se ninguém tem o que reclamar dele; enfim, se fez a outrem o que quereria que se fizesse para com ele."

Essa é só a introdução, tá? E depois ele lista fé em Deus, fé no futuro, indulgência, caridade, amor, benevolência, respeito às diferenças, ausência de ódio, rancor e desejo de vingança, humildade... E por aí vamos nós. Eu não sei vocês, mas eu não estou nem um pouquinho que seja perto disso... E aquela noite do Evangelho no Lar, confesso, não foi nada fácil. A gente vai dormir com a consciência pesada e a certeza de que o caminho é loooooongo!

Pois bem. Encontrei então, na obra Boa Nova de Chico Xavier, pelo Espírito Irmão X ou Humberto de Campos, algo que me fez sentir um tanto consolada... Nessa obra fantástica, emocionante e de narrativa simples e cativante, Humberto de Campos nos revela aspectos da convivência de Jesus com seus discípulos, sob um ponto de vista que o Evangelho muitas vezes não contempla. Temos então, uma versão "ultra humanizada" daqueles que caminharam lado a lado com Jesus na sua existência terrena. Vemos um Pedro teimoso e agressivo; um Bartolomeu tristonho e magoado; um Tiago incrédulo e duvidoso; um João assustado e perdido. Há muitos aspectos humanos sendo ali expostos no texto e, ao lê-lo, questionei-me: como poderemos deixar de lado nossas imperfeições e praticar o amor pleno praticado por Espíritos como Chico Xavier, Gandhi e tantos outros seres que pudemos conhecer na História e ler nos relatos de livros espíritas?

Reformar-se intimamente exige, primeiramente, que conheçamos a nós mesmos, que não nos deixemos cegar pelo véu do orgulho e do egoísmo, essas grandes chagas que adoecem nossos corações. Precisamos, portanto, conhecer as nossas falhas para saber o que fazer com elas, rever os nossos atos e palavras para saber onde erramos e pedir perdão. Descobrir com um mergulho para dentro de nós mesmos que não somos tão bons quanto gostaríamos é uma atitude extremamente dolorosa. Ela nos traz vergonha, arrependimento, e nos ensina a humildade forçosamente. Como, pois, atingir o objetivo de minimizar esses males que assolam nossa alma? Quão fortes somos nós para assim procedermos?

Ao perceber as dificuldades daqueles que conviveram LADO A LADO COM JESUS - e com suas sábias palavras, sentindo seu magnetismo cotidianamente, bebendo de seus ensinamentos em sua rotina, vendo tantos "milagres" e tanto amor verdadeiro - em reformar-se e melhorar-se, exibindo tantas faltas, senti-me um tanto quanto aliviada. Então, você pode estar pensando: 'nossa! Que conclusão egocêntrica!', mas a verdade é que isso nos mostra quão difícil é para nós, meros mortais no século 21, atingir a elevação espiritual. Se para eles que beberam "direto da fonte" já não foi tarefa simples, imagine para nós! Foram dois milênios conhecendo as palavras de Jesus através de traduções e interpretações distorcidas, hoje rodeados de luxos, confortos e imposições de consumo que nos distanciam da simplicidade ensinada por Jesus. Somos nós cobrados a partilhar nossas "conquistas" e "alegrias" (muitas vezes superficiais e falsas) para sermos aceitos socialmente, precisando renunciar a tudo que conhecemos e sermos diferentes. E convenhamos: ser diferente nunca foi fácil.

Então, COMO É QUE EU FAÇO ISSO? Bom, aqui vão as humildes dicas de uma espírita iniciante.

Passo 1: Não se cobre tanto. Tenha paciência e perdoe a si mesmo. Como diz a música ando devagar porque já tive pressa. Se o caminho é longo, não nos angustiemos. Deus sabe o tempo.

Passo 2: Mantenha o foco. Apenas mantenha o foco em ser alguém melhor, se autoavalie com frequência e leia boas obras espíritas como um mapa para o tesouro.

Passo 3: Aprenda a pedir desculpas. Esse é um exercício daqueles!! Mas vale a pena o sacrifício. Compreenda que somos TODOS IMPERFEITOS e errar é humano. Peça perdão quando errar e siga em frente.

Mas, se você quiser o conselho de um especialista, leia a obra Paulo e Estevão, pelo espírito Emmanuel, e lá você terá as dicas certas de um ser de luz chamado Abigail. E ela nos diz que o caminho é AMAR, ESPERAR, TRABALHAR E PERDOAR. O melhor de tudo é que essa máxima parece funcionar para tudo! Curta e exata! (Aliás, Paulo de Tarso é O grande exemplo de superação e reforma íntima... Leia a obra e você saberá!)

Renunciar a nós mesmos, buscando melhorar e sacrificando nosso orgulho pelo bem do próximo, não é tarefa fácil. Pedro e os demais apóstolos nos mostraram isso. Foi preciso que Jesus retornar-se após a crucificação e o desencarne doloroso para que eles acreditassem e praticassem os ensinos do Cristo através da caridade e do amor. Sendo assim, a luta é árdua, mas é necessária. Persistamos na tarefa hercúlea do autoconhecimento para o burilamento de quem somos em nome de Jesus, um passinho de cada vez, sem tanta pressa e cobrança, afinal, temos a eternidade! #assimseja

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Quem somos?

Olá!

Este é um blog amigável, portanto, sinta-se bem vindx!

A ideia aqui é criar um espaço onde possamos refletir sobre as leituras, palestras e demais formas de divulgação do conhecimento espírita com as quais tive(r)mos contato. Criaremos elos entre a teoria e as vivências reais, tentando ver na Doutrina Espírita o consolador prometido que tanto nos afirmam ser. Tudo com muito bom humor!

Tornei-me espírita há pouco mais de 4 anos e, desde então, venho tentado pôr em prática os seus ensinamentos, refletindo sobre os acontecimentos cotidianos à luz do Espiritismo, encontrando nele grande alento e força, e buscando ser alguém melhor a cada dia.
Como costumo dizer, ser espírita não é fácil: a Doutrina nos exige comprometimento diário, autoconhecimento, análise dos menores atos e palavras e a consequente avaliação de si mesmo, requerendo que nos enxerguemos em todas as nossas falhas, percebendo como é difícil mudar positivamente. E como é árduo esse trabalho!!

Nos últimos meses, minha vida pessoal e profissional exigiu de mim decisões um tanto duras. As transformações no meu dia-a-dia me possibilitaram ter tempo, disposição e, principalmente, necessidade de compartilhar ponderações e sentimentos, evitando assim meu próprio isolamento como também pretendendo humildemente que essas reflexões possam auxiliar mais alguém além de mim.

Vamos, então, dar início a essa jornada eterna rumo a felicidade plena que nos espera mais além.

Abraços fraternos,

Juliana