"Garanto que não sei por que estou triste;
A tristeza me cansa, como a vós;
Mas como a apanhei ou contraí,
Do que é feita, ou do que terá nascido,
Ainda não sei.
A tristeza me fez um tolo tal
Que é difícil até saber quem sou"
Trecho de O mercador de Veneza, de William Shakespeare
Li o trecho acima na obra O demônio do Meio-dia de Andrew Solomon, escritor americano e doutor em psicologia. O livro - fantástico!, diga-se de passagem - é uma extensa, densa e emocionante narrativa sobre a depressão, em que o autor traz aspectos científicos, pessoais, jornalísticos e psicológicos sobre esse mal, considerado a doença mais incapacitante, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Kofi Annan, ex secretário-geral das Nações Unidas, afirma que cerca de 7% da população mundial é vítima da depressão, o que corresponde a aproximadamente 400 milhões de pessoas. Desses, 800 mil comentem suicídio (uma morte a cada 40 segundos), sendo este a segunda maior causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos, e fazendo mais vítimas na faixa etária acima dos 70 anos.
Para Solomon, os números sobre as vítimas da depressão revelam a urgência em estudarmos mais a doença e nos sensibilizarmos mais em relação a ela, mas quantificar a doença como causada por ausência da quantidade X de substância Y no organismo é simplificá-la demais. Não existiria uma causa única comum a todos os pacientes, assim como uma solução única, farmacológica ou terapêutica para todos os casos. No livro, ele reforça a diversidade de casos, origens e principalmente o desconhecimento generalizado acerca dela.
A depressão caracteriza-se por inúmeros fatores e dentre eles estão: tristeza profunda sem motivo específico, ansiedade, angústia, apatia, desânimo, isolamento, redução ou incapacidade de sentir prazer/alegria em atividades que outrora despertavam boas sensações, indecisão, pessimismo, sentimento de inutilidade, baixa autoestima, baixa libido, mudanças no apetite, perda ou ganho de peso não intencional, dificuldade de concentração, dificuldade para começar a fazer suas tarefas, e terminar aquilo que já começou, alterações no sono e sintomas corporais, como dores, problemas digestivos e alterações nos batimentos cardíacos.
Como espírita, eu me questiono: qual a visão que o Espiritismo tem da depressão? Seria ela fruto de obsessões ou questões de vidas passadas? Como tratar a doença e enfrentá-la?
Lendo trechos de algumas obras e assistindo alguns vídeos sobre o tema, percebo que, assim como afirma Solomon, para o Espiritismo há diversos fatores que explicariam a ocorrência do mal. Joanna de Ângelis fala de culpas de experiências passadas, perdas dessa mesma encarnação e traumas da experiência uterina (sentimentos transmitidos pela mãe, por exemplo). Divaldo Franco cita as questões obsessivas como causadoras, também, dos episódios depressivos. Alberto Almeida, médico, psicoterapeuta e palestrante espírita, relata casos de Espíritos que reencarnam longe daqueles que foram próximos de si em outras encarnações, trazendo em si a tristeza da saudade. Não há portanto, um fator único desencadeante segundo a Doutrina dos espíritos. Há uma pluralidade de origens que, talvez, até possam somar-se para ocasionar o problema em uma só pessoa.
Acredito, todavia, que o Espiritismo traz falas interessantes e construtivas sobre como conviver com a depressão ou tratá-la. Espíritos de luz, como Divaldo Franco e Natanael (ou Bartolomeu, apóstolo de Jesus), foram vítimas da depressão o e estiveram até muito próximos ao suicídio, encontrando a solução para isso em uma vida dedicada ao Amor.
Joanna de Ângelis nos diz ao encerrar uma mensagem sobre depressão:
"O hábito saudável da boa leitura, da oração, em convivência e sintonia com o Psiquismo Divino, dos atos de beneficência e de amor, do relacionamento fraternal e da conversação edificante constituem psicoterapia profilática que deverá fazer parte da agenda diária de todas as pessoas." (Triunfo Pessoal, psicografado por Divaldo Pereira Franco)
Emmanuel nos aconselha:
"Guarde a convicção de que todos estamos caminhando para adiante, através de problemas e lutas, na aquisição de experiência, e de que a vida concorda com as pausas de refazimento das nossas forças, mas não se acomoda com a inércia em momento algum." (Busca e Acharás, psicografado por Chico Xavier)
Jesus, falando a um Bartolomeu costumeiramente triste, afirma:
"[...] É preciso considerar que a alegria, a coragem e a esperança devem ser traços constantes de suas atividades de cada dia. Por que firmamos no pesadelo de uma hora, se conhecemos a realidade gloriosa da eternidade com o nosso Pai?" (Boa Nova, de Humberto de Campos, psicografado por Chico Xavier)
E Chico Xavier relata:
"Quando a depressão me ameaçava, Emmanuel me recomendava deixar o que estivesse fazendo e ir à periferia, efetuando demora visita aos lares em situação de penúria. Depois de conversar com aquelas mães sofridas, eu voltava para casa com vergonha de mim..."
Sabemos que a depressão muitas vezes expõe o doente a um quadro de quase total desânimo e que, muitas vezes, sair da cama parece tarefa hercúlea. A força que nos move, entretanto, surge apenas de nós mesmos e ela existe em todos. Solomon, ainda que não seja espírita, parece concordar sem saber com o que a Doutrina nos diz ao afirmar:
"Aprendi com minha própria depressão como uma emoção pode ser imensa, como ela pode ser mais real do que fatos, e descobri que essa experiência me permite vivenciar emoção positiva de um jeito mais intenso e focado. O oposto de depressão não é felicidade, e sim vitalidade, e, atualmente, minha vida é vital, mesmo nos dias em que estou triste. Senti aquele féretro no meu cérebro, e sentei-me próximo ao colosso, à beira do mundo, e descobri algo dentro de mim, que chamo de alma, que eu nunca elaborara até aquele dia, 20 anos atrás, quando o diabo me fez uma visita surpresa. Acho que ao odiar estar deprimido, e odiaria novamente, descobri um jeito de amar minha depressão. Eu a amo por ela ter me forçado a buscar alegria e a me agarrar a ela. Eu a amo porque, todos os dias, eu decido, às vezes com bravura, e outras, contra a razão do momento, agarrar-me às razões de viver. E isso é um grande privilégio." (Palestra em www.ted.com, Depression: The secret we share, legendado em Português)
Sendo assim, ame. Encontre algo ou alguém que desperte em si o amor e apegue-se a esse sentimento para seguir adiante pela eternidade.
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